Roda de mate

Por: Luca Jordãohttps://lucajordao.wordpress.com/ Não há tristezaCom uma cuia na mão!Há, pois sim, a alegriaQue nos dá o chimarrão,Dádiva da naturezaQue aviva nossos dias!O olor que nos sobe às narinasDa água quente derramandoSobre o mate verde.A sede que nos consomeE que nos vai aproximandoPelo charle dos viventes.É um charme da tradição,Enquanto se vai passando o porongoAo […]

Roda de mate

Rosa de Aço

Engendro uma Rosa de aço
Dos meus recursos escassos.
As pétalas dantes delicadas,
Faço-as duras, laminadas.


Os espinhos já sempre cortantes,
Não menos estão excruciantes.
Rosa de aço, ferrada,
De sua cor cinza, prateada,

Sede dilacerante tua composição.
Gotas de sangue jorram ao chão!
E já pálido, sem cor,
Findando vou minha flor.

Eis que enfim termino
Com contentamento de menino:
Tinjo-a de mim, encarnada!
Arrefeço, mas está a Rosa acabada.

Mate de cada dia

Por: Luca Jordãohttps://lucajordao.wordpress.com/ Mate de cada dia,Que alivia as doresDe viver, nos dandoAlegria para vencerAs jornadas da vida,A lida e seus amargores.Mas mateandoO amargo da erva,Aquilo que me enervaSe vai, por um instante,Pra adiante do pensamento.Tento apreciarDo verde o teu saborPara acalmar a minha dor,E quem sabe acabarCom essa agoniaAnsiada que nos bate,O mate de […]

Mate de cada dia

Tristes palavras

I

Sobre os mistérios da vida ―
Que mistérios? Que vida?
Deixai-los como são:
Mistérios!

Do que nos vale
Nosso conhecimento?
Do que nos vale
Todas nossas palavras?
Nossa inútil filosofia, incólume.
Ah que tédio também sem ênfase…

Irmãos meus morrem!
Morrem sempre e nunca
Morrem em minha poesia –
Mas morrem meus irmãos!

Eis o mistério da vida:
Não a morte, mas a vida nossa
De nos alhearmos a tantas mortes
Para atentarmos ao nosso egoísmo!
E ainda quando muito dizemos,
Quase nada parece fazermos.


II

Ah as palavras!
Postas enfileiradas
Lado a lado como soldados
Prontos a irem à guerra, dispostos
A matarem e a morrerem
Por algum bem
Que nem entende bem!
Que nem sabem bem!

Bem, nem sabem,
São tristes palavras,
Dominadas por uma força maior.
Se soubessem
De sua importância em si…

Se soubessem
O que fazem e o que dizem,
Sairiam espavoridas e consternadas
Dos papéis, das telas,
Das placas propagandistas,
Do discurso demagogo!
Até mesmo da carda boca,
Envergonhadas com que
Delas fazem e dizem!


III

Mas tristes são as palavras,
Tão vilãmente escravizadas,
Sem domínio algum sobre si.
Mas assim como as usam para a cura,
As usam como poderosa arma mortífera.

Tristes as palavras
Sob nosso domínio que,
Pouco domínio nós temos
Com as ledas palavras,
As usando de forma triste
Para o nosso egoísmo.
Ah! tristes de nós…

A Dama de Sangue

Por: Luca Jordãohttps://lucajordao.wordpress.com/ Condessa húngara Elizabeth Bathory (Erzbeth Báthory, do original) Tenho por mania excêntrica perambular pelo cemitério, examinando esta e aquela lápide, calculando conforme as datas ali impressas, com que idade aquele alguém faleceu. Era um cemitério cristão, com cruzes dos mais variados tipos e tamanhos, porém quase todas medíocres, sem esmero algum. O cemitério em […]

A Dama de Sangue

Mate de cada dia

Mate de cada dia,
Que alivia as dores
De viver, nos dando
Alegria para vencer
As jornadas da vida,
A lida e seus amargores.

Mas mateando
O amargo da erva,
Aquilo que me enerva
Se vai por um instante,
Pra adiante do pensamento.

Tento apreciar
Do verde o teu sabor
Para acalmar a minha dor,
E quem sabe acabar
Com essa agonia
Ansiada que nos bate,
Mate de cada dia.

Payador

Sou um poeta do Sul
Que canta seu céu azul
E o verde do seu chimarrão.
Admiro a nossa tradição
Mas não sou tradicionalista.
Sou sulista, catarinense.

Orgulho da minha gente,
Debaixo de tempo quente
Ou em gélidas temperaturas
Labuta mesmo com agruras
E assim ainda sorri e afaga
Enquanto traga seu mate.

Que saúde não nos falte.
Que sejamos sempre livres.
E para aqueles que aqui vivem,
Seja daqui natural ou distante,
Que deixaram sua terra Natal
E se tornaram migrantes,

E também para aquelas
De outras fronteiras mil,
Então, um quebra-costela
Do tamanho do garrão
Do nosso Brasil.

Espelho quebrado

Por: Lucas Jordãohttps://lucajordao.wordpress.com/ @meninopoetalu- contato Sou um poetaperdido, partidoem pedaços diversos,disperso em milsentimentos e tintasque a caneta pintaindistinta, a molharfebril o pensamento! Sento, a olharpara todos os cacosque aqui acomodoe que me compõem,que mal se dispõemtais, fracos e opacos,com espanto e desencantotal, os seus tantos reflexosespectrais e complexos! E quanto maisme descobrir tento,me perguntando:Alguém sou, […]

Espelho quebrado

Livro: “Chuvas & Noites”

https://loja.uiclap.com/titulo/ua42865/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAabkwDQdJEoU4gMATIzwijJGsAd1DO2r_bUAhQKli4vOwgjysqxOQL5Doyk_aem_AccBCqTZDoG4hHjiFdCG-7KhkNGBXpP9NDt83-6yc4wlbBUWQj3JzfDnUYccSxOH5Bo3uMIjRMJP9CbrZG-Jt57g

Muitas poesias que foram postadas aqui, estão neste livro, como Melancolia, Espelho Quebrado, Rio da Morte, Poesia Negra e Poeta Perdido.

O (Nosso) Mundo


O mundo gira.
E daí que gira?
O pião também gira!
E vai girando, girando…
Oscila, vacila e, para.

Talvez o mundo seja um pião:
Gira, gira, gira até que, pare!
E toda aquela beleza contida
Em seu movimento, se finda.

Pesares

O Padre abre as portas
Para o pobre perto passar
Daquele que tanto conforta,
Que de nobre Deus o chamará.

O pedreiro construía casas
Usando betoneira e argamassa.
O padeiro amassava a massa,
Enquanto o forneiro assava pão.

O pássaro ainda passa as asas
E para perto para do alçapão.
Na pedreira a preta pedra
Pesada é britada por Pedro.

A professora que pensava
Na sua vida tanto pesada,
Passava na lousa uma lição
Já passada na semana passada.

Pesava-se o pêssego na feira
Para o impaciente freguês,
Que já pela segunda vez,
Pedira pressa para João.

Observava o paciente patrão
O empregado do mês, descontente,
Que na segunda-feira presente
Seu pai atropelado, João perdera.

Tanto tempo tenho andado
Com o meu peito apertado,
Pesado pela falta de paz então!
Já não sei mais onde têm estado
Meus alegres versos do Coração!

Doce amargo

O chimarrão
É dum amargor
Que adoça a vida,

De quem um dia
Adoçou-se de amor,
Tendo ao fim colhido
Somente amargor.

Escrita

A invenção mais importante que você viu foi…

A escrita, sem dúvida. Se não fosse por isso, como poderíamos estar aqui, nos comunicando através desse conjunto de caracteres?

Dolce Sonetto

Não quero pois ser mesquinho
E furtar-lhe assim teu coração.
Mas creio que amá-la sozinho,
Comigo, seria um amar em vão!

Quero-a com todos teus “sims”
E também com todos teus “nãos”.
Pois o amor será sempre assim,
Um intenso querer de contradição!

Mas enquanto não a tenho comigo
Choro e sorrio, emudeço e canto,
Para eu ver se tanto consigo

Esquecê-la um pouco, no entanto.
Mas mesmo no pranto de amigo
Há você, com teu doce manto…

Supernova

Na vastidão do mundo,
Do profundo Universo,
Um verso vai se desfazendo,
Desfalecendo em explosão
Toda a sua energia,
Chegando ao fim uma bela
E grandiosa poesia.

E assim, carregada
De sentimento e pesar,
Com o passar do tempo,
Uma gloriosa estrela
Cai no esquecimento.

Mas nada é de fato esquecido.
Um segundo ato começa.
O corpo rotundo se dispersa,
Todo partido e despedaçado;
Colapsado, morto de torpor.

Como é de se supor, querida,
A vida urge e tudo se renova.
Eis que surge uma supernova!

O (re)encontro

Como dois amigos
Há tempos sem se ver,
Depois de passados
Alguns anos apenas,
Sento Comigo de antes.

Ambos cansados;
Calados sem entender
Os desenganos da vida,
As duras penas sofridas.

As aparências mudaram.
Os olhares cansaram.
Amores foram vividos,
Temores esquecidos,
Humores adquiridos.

Mas apesar disso tudo,
De tanta vivência,
Continuamos mudos,
Tristes com tanto pesar
Que insiste com violência
A nos separar de nossa essência.

Observamos o mar à frente:
Belo como sempre foi!
O que nos torna agora
Diferente? O de outrora
Ainda acredita que amar é,
Por si só, suficiente:

Como uma criança
Ainda cultiva esperanças!
Ainda tem vivas lembranças
Que são, na verdade, ilusão!

Mas que, mesmo assim,
Veio até mim sem felicidade,
Imerso em profunda solidão.

Me despeço d’Ele com dor
No coração e Me disperso,
Ficando ainda mais solitário,
Pensando e escrevendo:

Se, até Ele, crendo
No amor, mesmo sendo
Às vezes, por fim, imaginário,
Era funda Sua depressão:
O que restou para mim?!

La vie sans roses

Quando você
Tenta correr
E não alcança
O seu sonho,
Viver cansa.

Desde criança
Sempre tristonho,
Caminhando à procura
De alguma alegria;
Buscando uma cura
Para a minha melancolia.

Achei na Poesia
Uma maneira pura
De abrandar a dor;
Transformar o amor
E o carinho de amar
Sozinho em canção
E também sinfonia.

Faz bem, alivia o coração.
Mas… dia após dia,
Cada vez mais a sós,
Imerso na solidão,
Meus versos se vão,
Se esvaindo em agruras
Na imensidão do infindo
Universo das loucuras.

A tristeza perdura.
A fraqueza se acumula.
Nada muda e continua
Dura a vida e nula;
Em suma, sofrida!

Incertezas

Sonhos que vejo tão distantes se indo
A um só destino nunca antes planejado.
Choro feito um triste menino, se sentindo
Perdido da mãe, sua segurança e cuidado!

Criança, não chores! Guarde um sorriso lindo
A quem o encontre e devolvas ao colo sagrado
De tua mãe, que o procura nesse mundo infindo.

Mas dói sonhar e vê-los tão de ti, distanciados…
Amores, planos, trabalhos ― tudo se esvaindo
De minha mente que um dia os julgou realizados:
A mim mesmo mentia, com alegria no rosto sorrindo!

Se hão os sonhos de me achar, cá estou, cansado
De me iludir, sonhar; vê-los sempre de mim partindo.
Ficarei com a Razão, mas com a Loucura ao meu lado!

Pescador de Amor

Pobre poeta e pescador,
Que no mar da vida
Pescou amor e sentimentos,
Mas também dor e sofrimento.

Com seu barco cheio de vaidades,
Esqueceu-se das veleidades
Escondidas no porão,
Carcomidas de solidão.

Mas triste é saber a verdade.
E entre vários raios e trovão,
Veio vindo a tempestade,
Jogando águas na embarcação.

E aqui se vão as saudades
Dando lugar ao terror
E às necessidades
Para não se morrer de amor.

Primeiro, tudo de ruim
Ao mar fora jogado:
As brigas, ciúmes, infelicidades –
Tudo tirado de mim.

Depois se vão
Os versos rimados:
Declamação, declaração.
E se vão também
Os sonhos da realidade:
Desilusão, destruição.
Destituição e desdém
Além da eternidade.

Para não morrer
Nas mágoas que criei,
Vou atirando às águas
Do mar a se revolver
Todo o meu pesar,
Tentando assim me salvar
Do fim que bem eu sei…

Atiro todas minhas idades,
Todo o afeto e carinho
Recebido e dado.
E sem mais agrado,
E sem identidade,
Eu fico sozinho…

… São e salvo, com frio,
Num silêncio profundo;
Navegando pelo mundo
Com o meu barco vazio.

In memorian

Eu matei o poeta,
pois a vida tirou dele
suas poesias.

E o que é um poeta
sem as suas poesias?

Eu matei o poeta
para livrá-lo de tanto
sofrimento!

Incógnita

Sou um ser ― isto é irrefutável!
Mas, que tipo de ser sei ser,
se é que sou algum tipo específico
de ser senão um vulgar ser?

Sou o que dizem que sei ser
ou sou o que digo ser somente?
Sou eu quem penso quem sou
ou sou persuadido a pensar ser
quem querem que eu seja?
Afinal, que ser eu sou?

O ser é algo tão complexo
que preferiria não ser.
Mas já que tenho que ser,
serei tudo que tiver que ser,
ainda que não seja
ou não venha a ser!

Caminhar

Caminho melancólico
pelas sinuosas ruas da vida,
vivendo uma vida sofrida;
enfastiado com a vida
medíocre que tenho vivido,
e abatido e também calado;
e que quando tenho falado,
tenho sofrido mais ainda!

Devagar caminho
por turvos caminhos!
Devagar, devagarzinho
caminho consciente
em minha inconsciência.

Sabendo aonde chegar
(não sabendo se há de chegar),
caminho, taciturno, noite e dia!

Atarantado com o passado,
angustiado com o presente
e ansiado com o futuro;
futuro incerto, decerto futuro:
Tudo me perturba a mente!

Há uma pedra no caminho!
Por onde caminho há uma pedra!
Há uma pedra no meu caminho!
Há um pedregulho, uma montanha:

Questão de perspectiva!
Questão de analogia!
Mas há uma pedra!

Pego a pedra e guardo-a!
Não é possível deixa-la para trás!
Ela lá tem sua ínfima beleza
ainda que eu não a veja!
Mais um peso a carregar
em minha caminhada enfastiada!

Embora cansado eu continuo
caminhando, devagar
e pensativamente…

Chanrges

Eu mudo constantemente.
Desconheço, sobretudo
Com o sol poente,
Aquele ser de cedo,
Que acordou com medo
Com o nascer do Astro-rei.

Esqueço quem sou
E um tanto daquilo que sei
Para se ter espaço,
Em tudo que faço
Para mais aprendizado.

No entanto, desolado,
Perco memórias e momentos
De paz, alegria e cantar
E me cerco de sentimentos
Tristes que me faz criar
História que não existe.

E sempre persiste
Um pesar de acordar
Novamente. Quem serei
Realmente no dia seguinte?
Farei poesia de requinte?
Ou serei somente um ser
Comum, cansado de qualquer
Um viver, posto deprimido,
Enganado e ansioso?

Tenho me rido do meu gosto
Falacioso de ver a vida.
Mas é um riso duma boca
Comprida de dentes e mordaz,
Com pouca sanidade e siso
E muita realidade no rosto,
Que sente mas mente;
Com a mente já louca.

Suicídio

Das lágrimas que chorei,
um rio compus.

Construí uma ponte
imensa e alta
para ver, lá de cima,
todo meu sofrimento.

Depois, me atirei de lá,
sem mais razão para viver.

Pôr-do-sol

Vejo o sol se pondo
depois de finda a chuva.

O cheiro de terra molhada,
os pássaros cantando e se recolhendo,
as folhas verdes mais verdes,
as flores mais floridas e coloridas;
a vida alegre se alegrando…

Olho para tudo isso,
eu sinto a tudo isso
e penso aqui comigo:
Que dia mais lindo!
Que dia mais lindo
para morrer!

Mas que besteira!
Todos os dias são, lindos!
Todos os dias são lindos
para morrer!

Ali

Menininho loiro,
não corras assim
tão apressado.

Não corras.
Não vês o abismo
na tua frente, ali?

Não corras,
menininho loiro,
ali há só dor e tristeza.

Ali está o teu futuro
e o meu presente,
não corras.

Otimismo

I

Dentre
tantos quartos,
tantas casas,
tantas ruas,
tantos bairros;

Dentre
tantas cidades,
tantos Estados,
tantas regiões,
tantos países,
tantos continentes;

Dentre
tantos planetas,
tantas constelações,
tantos sistemas solares,
tantas galáxias,
tantos aglomerados de galáxias,
tantos universos ―

Quem eu sou?

II

Talvez possam me chamar
de deprimente, pessimista,
mas às vezes eu me animo
e penso positivo sobre mim.

Às vezes eu paro e penso:
Eu sou um grão de areia!

Ansiessão

Estou doente da vida.
Dói me viver doente
sem esperança de cura.
Padeço de um mal comum
demais para se importarem.

Então eu tomo os malditos
remédios que me ajudam
a viver assim comumente,
mas bem por fora, destruído
por dentro sempre e sempre.

Sono, é tudo que há em mim.
Sono, muito sono. O dia todo.
Vou dormir por um instante,
talvez só uma eftermirnidade
que a morte nos dá cobrando.

Cadáver

O choro não alivia
porque não há choro.
Sou duro feito rocha.

As lágrimas não caem
como a minha cabeça
olhando para o precipício
antes de nele cair também.

Há fraturas e dilacerações,
desmembramentos e sangue;
muito sangue, mas nenhuma,
nada sequer de lágrima,
pois é apenas um corpo
morto; um cadáver.

Anelo

I

Quero o encanto
Do teu sorriso!
Espero tanto
Eu por isso
Que tenho febre ―
Canto e deliro!

Com o cenho alegre
O quanto eu respiro,
Ofegante, quase
Sem nenhum ar!

No entanto me reviro
E excruciante nasce
Em algum lugar
Da minha mente
Esse sentimento
Que, alinhadamente

Aparece em tormento
E se aninha juntamente
Ao torpor que já albergo:
É a dor que cá carrego
Em meu triste peito!

Insiste, mas não há jeito
De lhe ver linda sorrir!
Crer ainda no porvir?
Não aguenta sofrer;
Arrebenta meu ser!

Deixai-me dormir!
Deixai-me morrer!
Do que me adianta
Sem ais, sentir?
Se o que se canta
Não posso assaz ter?

II

Quero tanto
Te ver sorrir!
Fero encanto
A fazer delir
Minha saúde!

Avizinha-se atitude?
Terá algum gênio
Ou alguém talvez,
Vívido, criador,
Que faça surgir
Pra mim
E em mim
A graça do teu sorrir?

Será que há convênio
Pra quem na tez
Tem sofrido de amor?
Que sare minha ferida,
Que endireite minha vida,
Que repare minha dor?
Dai-me o deleite, favor!

 
III

Caladas estelas,
Ajudai-me, dizei?
Respostas em mim
Tanto procuro
E nada delas
Jamais encontrei!

Desgosta ao fim,
Em pranto, com furo
Deixado aqui em meu
Sentido Coração,
Meu Ser sentimental!

Tenho tido
Muito medo;
Cá me desespero
Sem estado a sentir, Eu,
Sofrido, com a Razão.
Poderá ser normal?

O lenho perdido,
Sem intuito ledo,
Já nada mais espero;
Eu já não gosto!

Não mais
Busco sorriso
Em meu rosto
De razão e paz;

Ofusco um riso
Amargado, amarelo ―
Dissipado o anelo!

Angústia

Fico parado me perguntando,
Será que Ele estará chegando?
Ando de um lado e do outro
E só desassossego encontro!

Distraio-me com coisas banais:
Tento ler revistas, livros, jornais…;
Rabisco algum singelo desenho.
Feições preocupadas no cenho!

A mente a fervilhar, eu vou pensando,
Será que, Ele, estará já chegando?
Nada penso que possa ser definitivo,
E desse sentimento eu fico cativo!

Quando mais vergo para o mundo
Atenção, mas em mim me afundo.
Há violência, dor; tanto sofrimento!
Há um Ego agitado em tormento!

Vou por toda a casa, caminhando
Irrequieto. Ele estará chegando?
Um objeto aqui pego, outro acolá;
Mudo distraído cada um de lugar!

Revejo pela enésima vez retratos:
Rostos a reluzirem tanto, sensatos
E esperançosos duma feliz graça!
Olhos a verem o inseto que passa!

Coração fortemente palpitando,
Ansioso. Ele está já chegando?
Olho para a noite clara de lua
Cheia, sentado no meio da rua!

Ficarei aqui todo tempo que for
Preciso, lhe esperando, Amor!
Talvez venha numa Flor, Criança,
Amada… Talvez seja só esperança!

Sexto sentido

Triste coração partido!
Creio estar perdido
Da paixão deste mundo.
Mas muito a fundo
Meu partido coração
Tem tanto insistido
Em amar todo mundo
Com um gosto profundo!
Vívido rosto da Razão,
De emoção precavido!

Sexto sentido aguçado!
Sentir sem ser amado,
Mas amar mesmo de verdade;
Ter todas as idades!
Saber sentir para cantar,
Pra deixar o Interno lado
Falar somente a verdade,
Mesmo sendo falsidade
O que o Externo irá falar:
Amei para poder ter cantado!

Am(arg)ores

Muitas são as palavras;
Quantas bem eu disse em vão?
Tantas malditas são as pragas;
Poucas afetam meu coração.

Mas o que tampouco eu valho
Se de pouco Amor eu me valho?
Amo, sobretudo, ao Nada.
Amo tudo sobrenada.

Não vivo temendo ao Amor,
Pois morro sofrendo sem dor.
Creio que tudo se é possível,
Sendo eu mesmo o impossível.

Morrer sem Amor cantar;
Viver sem por Flor suspirar:
Propósito sem propósito!
Amar, suspirar, cantar; calar-se.
Amar, pensar, falar, calar; amar-se!

Alegre Mágoa

Alma minha magoada!
Posso saber ser minha mágoa
Se, o que dentro de mim desagua
Não sentiu minha pele, nada?

Encharca todo meu Ser!
Toma, mágoa, conta de mim.
Choro mesmo sem querer,
Sem saber, Eu, do nosso afim.

Mágoa fingida!
Águas sinceras!
No rosto escorridas
Lágrimas deveras.

Cessar meu pranto.
Tomar um lenço.
A mágoa é um canto
Oriundo do que penso!

Apaixonado

Esta poesia a ti eu faço, querida!
Tu, que fazes minha cabeça, calada!
Fazes de mim o que te aprouver,
Ó gloriosa e ciosa deusa-mulher!

Transformas-me em alguém,
Para o mal ou para o bem!
Eres a razão do meu viver!
Sem tu, arrisco-me a morrer!

Calma aí em cima, guria!
Não te falei que cumpriria
Com a minha promessa?

Quieta! Não mais me peça!
E dê-se por muito contente
Ó, minha amada mente!

Constatação

Ao longo dos anos fui me descobrindo;
Pelos caminhos da Poesia eu fui indo…
Que grande momento e descoberta,
Eu, tão reles e medíocre, um Poeta!

Tratei de compor os versos mais lindos,
De escrever grandes pensamentos infindos!
Que honra em servir à literatura nacional,
Em ter valia o meu precioso dom sentimental!

Mas ainda assim me considero um Nada.
Não um nada como forma tão depreciada,
Mas a algo que tende sempre a aprender!

E apesar de tudo que eu fiz, que vou fazer,
Eu procurarei sempre, mas sempre, evoluir!.
Assim vou indo, sentindo o que há pra sentir…

Abismo

Abismo, vou me precipitar e me jogar.
Cansei dessa entediante e trivial vida.
Cansei de sozinho e de tristonho estar.
Vou me atirar nessas pedras coloridas.

Elas ferirão, dilacerarão todo meu peito,
Levarão consigo a minha alma cansada.
Já não serei mais Eu, serei outro sujeito,
Por tantas emoções, a mente dominada.

Lá me vou nesse abismo da Imaginação ―
E como estão ansiosas as minhas mãos!
Como são belos os seres que aqui vivem!

Meus olhos agora de poeta, melhor veem!
Morro de pensar! Morro de tanto sentir!
E todos os dias procuro sempre me delir!

Dias Cinzas

Enquanto cai a tempestade
Quero estar contigo, te abraçando
Como um amigo de verdade;
Te acalentando e te amando
No solidão dos dias cinzentos.

Para que quando teu coração
Receba a alegria de sentimentos,
Eu possa estar ali, sorrindo
Junto de ti, vendo o mundo
Girar e o tempo seguindo,

Tendo nossa paz surgindo,
Em que um segundo é tudo
Pra nós, dizendo que amamos
Sem escutarmos a nossa voz.

Gratidão

Para onde os sonhos se vão,
Perdido seu sonhador?
Tendo partido o coração,
Contendo somente dor?

Estive iludido c’a paixão,
Vivendo um ardente amor.
Mantido inclusive sem razão,
Morrendo frente esse calor.

Nada era querido senão
Do teu entorpecente sabor.
Não dei ouvidos à intuição,
A me mostrar o meu palor.

Nem pensar pensei então,
Já doente de tanto torpor.
Hoje, contido, em condição
De falar entretanto o que for,

A olhar o encanto e a ilusão
Que me tomou (triste dissabor
Que me vem à percepção
Sem espanto nem rancor),

Vejo, no entanto, gratidão
Por ser tocado por tua cor
Onde só pranto e escuridão
Haviam enraizado seu pavor;

Por ter me dado atenção
Quanto razão para eu compor;
Por ter me livrado da solidão
Enquanto tudo era desanimador.

Lavra dor

Mas tudo bem.
Eu mesmo plantei
Grandiosas expectativas
Onde não deveria ter lavrado.

Só colhi também
As Ilusões que eu sei
Que são frutivas
De amor não amado.

Sempre estive sozinho,
Me levantando a cada decepção.
Por que seria diferente
Agora, desta vez?

Eu sigo no meu caminho,
Ouvindo a mente e o Coração.
Até dói intensamente,
Mas tudo passa. Talvez…

Poesia de criança

E a criança chorava
Sem saber o que era poesia,
Sem conhecer o que era poesia.
Chorava porque isso a aliviava.

Pode chorar, criança.
Crês que tuas lágrimas
Tem muito mais poesia
Do que meus versos.

Teu pranto é a mais sincera
Das poesias; e a mais linda também.
Chora, criança. Chora.

Pudesse eu escrever poesias
Com os olhos como tu as faz.
Mas como já não posso mais,
Como já não mais sei, escrevo.

Ímpar

Não vou mudar minha aparência
De tal forma para agradar ninguém,
Pois ela não influi em minha essência,
Em meu caráter em ser um ser do bem.

Há tantos que se vestem com elegância,
Com máscaras impecáveis como quem
Não possui mácula, exalando doce fragância,
Quando se esconde em seu âmago desdém.

Fazer de mim, em minha parca vivência
O que querem que eu seja, um reles alguém?
Não! O mundo já está cheio dessa decência
Fingida. Vou seguir minha vida indo disso além.

Les Fleurs Du Jardinier

“Le petit Jardinier” Jean Frederic Bazille – óleo sobre tela – 1867

Que lindas são as flores do Jardineiro,
Infindas, cheias de cheiro o ano inteiro;
Cheias de amores e aromas, de odores;
Advindas suas vidas do Jardim das Cores.

Que encantos têm as flores do Jardineiro,
De doce canto em seu seio, seresteiro;
Cheio de louvores ao amor, de primores;
Portanto sarando a ferida e nossas dores.

Eu, enquanto não olhava o Jardineiro,
A morrer de temores, uma de suas flores
Roubei, e me dava a viver altaneiro.

Tanto sentimento me tomava em ardores.
Mas triste tento tão cheio de espinhos,
Pois esqueci no entanto que estava sozinho.

O poeta perdido

I

Vais caminhando
calçado, calado,
cansado com os pés
virados por essas ruas
alvas e puras.

Suas criaturas,
salvas da intemperança,
lhe dão esperanças
de se ter esperança
num mundo onde
as crianças choram
descrentes e sozinhas!

Tão carente e só
caminhas; e profundo
sentes toda essa gente
sofrendo, querendo
sempre pra agora!

Então vais embora
se indo, calcando os pés
para frente embora
se vejam para trás,
sentindo e amando
esse mundo como se
ele fundo te amasse!

Um passe a mais,
mais profundo e vês
que rastejam (onde
quer que eles estejam),
entes e seres doentes;

moribundos e gemebundos
sussurrando tais palavras
por demais incompreensíveis,
inaudíveis aos insensíveis,
imundos e nauseabundos
ouvidos dos humanos!

Mas, nesses tão
poucos e benditos anos
fecundos, observando
e dialogando cos loucos,
aprendesses a decifrar
aos ditos infecundos
olhares e feições:

Seus corações
carregam pesares
que se pudessem ser
pesados não haveria
balança que os pesassem!

 
II

Alcanças a glória!
Então vai, caminha…
só um pouco mais…
Mas a vitória não
mais lhe interessa.
Perdesse a pressa
que tu antes tinhas.

Nem nas melhores
memórias que mantinhas
em sesta, dormindo,
nem nas maiores
histórias que sustinhas
em festa, curtindo,

houve essa tal
glória tanto falada
que pudesse ser
comemorada por
alguém senão
em pranto!

Tudo lhe enfada,
porém! Não resta
gosto no rosto pálido,
posto não mais cálido
de torpor, ávido o corpo
por poder despertar!
Mas ai, desgosto!
estás já acordado…

III

Ao lado da tua
sombria e fria
cama, livros já lidos:
compridos romances
que com um relance
de uma alígera alegria
vivesse, e as poesias
que tanto amas;

e que se pudesse
escreveria igual com
tal vivacidade, verdade,
espanto e encanto com
que foram escritos!

Mas os malditos gritos
estridentes da tua mente
sufocam em tormentos
todos os teus portentos
sentimentos sinceros!

Deus do firmamento,
diga sem esmero aos que
me aqui suportam, por que
quero tanto escrever
o que não sinto?

Minto, entretanto.  
Mas os meus cantos
que viram pranto, sinto
lhes dizer, mas nunca
estive nem um quinto
quanto perto de os viver!

Será certo me chamar
poeta somente por isso?
Continuar a descrever
pretenciosamente o que
me afeta por um curto
período decorrer de tempo?

Tudo furto do momento
mas nada é realmente
definido como meu!

IV

Muito tenho sido
eu falaz em minha
paz e filantropia:
de dia sou igual
a todos e isto me
muito desagrada

(todos meus modos
triviais, a minha assaz
e enfarada simpatia) ―
Nada sou assim à noite!

Quem por acaso
aqui no raso da minha
razão penso que estou
enganando senão a mim
mesmo e eu próprio?

O ópio da poesia,
tão intenso inebriando
em mim, me deixando
infenso ao ódio e assim
em suspenso os meus
pensamentos e ais, me diz
neste momento, aliás,
para pôr um fim nela sem
demora; findá-la aqui,
agora mesmo e já!

V

Se me há por fora
nessa alegre hora
genialidades a existir
e elas queiram pois ir
embora, que se vão!
porque eis que me aflora
o meu terno e interno
sentir do coração!

É meu, sim; sinto!
Pressinto não poder
deixar para depois.
Será eterno enquanto
dure, como nos diz
o poeta Vinicius!

Quem quiser ser feliz,
no entanto, que procure
esquecer logo de início

de tudo aquilo que se aprendeu,
de todo o pensar que se deu,
do modo em que se aqui viveu,
do mundo em que se nasceu!

VI

Mas eu, contudo,
desnudo da felicidade,
não me importo com ela,
pois eu trago conforto,
tranquilidade e também
serenidade em minha
mente sentinela!

E em minha memória
há uma história que é
realmente tão bela;
e triste, porém, é bem
verdade, como tudo
o que em mim existe
e persiste e veem, que
aqui mais se revela:

As estrelas brilhavam
já, tinha eu cerca de
apenas uns oito anos,

(idade amena que
se consiste bem e nos
permite sermos felizes
sem se saber dos reveses
e dos enganos futuros),

e íamos puros, aos apuros
para nossa singela casa,
eu e mamma mia…

Quem por amor, ama
e tem com ardor e empatia
uma fera chama em seu
peito chamada piedade,
teria feito o mesmo que eu
fizera um dia em minha
parca e lhana idade!

 
VII

Não consigo
entender o inimigo que

(o que mais me marca
e me magoa quando penso
aqui comigo, imaginando),

com o seu jeito e os atos
insensatos, abandonou
à sua sorte e à morte,
na fria garoa que caía,
às margens da rodovia,
dois filhotes de gatos!

Ainda que me
conforte por tê-los levado
embora comigo, para
perto do meu suporte,

não consigo e
não posso esquecer
da negra noite a chover
de céu encoberto, sem lua,
já finda no penoso grado
de uma linda aurora,

o que os meus olhos
gelados de ingênua criança,
descoberto o sofrer, a doer,
consternados viram…

VIII

Alcança o que se
quer correndo atrás,
mas, vais vendo como
a bonança é apenas
duras penas e uma
má ventura, pois,

minha boca pequena,
esperta e de candura,
meus olhos de poeta
perdido, mas em alerta,
meus ais de pujança,

com tais esperanças
e intenções, pediram
abrigo aos corações
dos nossos possíveis
e impassíveis amigos!

Impossível, lhes digo,
será dizer tudo aquilo
quanto que passei…!

Não posso, portanto,
condená-los como pensei,
ou então julgá-los pérfidos
quando em pranto condenei

pois, nem sei, depois, se
no entanto e ocasião fosse
eu, como teria eu agido!

É doce e fácil julgar,
mas amargo e difícil se
colocar no lugar do outro!

IX

Escura manhã
tão clara…Meu ser
procura mas repara
ao menos momentos
antes, que é em vão
procurar ventura, pois eis
o que deprimido encontro:

Depois de terem
dormidos na gelura
do sereno os dois
infantes gatos, essas
pequenas criaturas
estão, então dormindo

de fato, tão amenas,
serenas e puras
pela Imensidão,
à beira do manso
regato dos Céus,
no descanso que
queira o seu amigo
e nefasto deus!

X

Não consigo conter
as minhas lágrimas
que escorrem com
lástima do meu cenho
neste momento…

E não é por dentro,
amigos, pois tenho
sentimentos comigo
que são meus!

É uma ávida  
dádiva lembrá-los,
sim! Olhá-los bem
mais de perto e,
poder assim estar
certo da sua nua
vivência em si!

Embora morem
seres em mim
na confluência do
pensar e do sentir,
sinto-me agora
existir de verdade,
mais do que esse
estranho coexistir
em se viver, tristonho,
a falsas saudades:

veleidades que
ganho da mente
e do sonho, que
querem somente
dançar uma valsa
linda e infinda; assim,
a pensar sozinho,
eu suponho!

 
XI

Mas enfim,
assim é o escritor
por ventura nossa
chamado pois, poeta,
que, por seu amor
e, secretamente,

esconde as suas
aventuras, o seu
inconstante estado
e o que todos os dias
sente onde ninguém
os possa poder ver!

Porém, para
a vossa alegria,
ou talvez desagrado,
pela emoção tomado
ao invés da razão,

escreve a verdadeira
dor que ferve feroz
no seu seio atroz
de versos e poesia!

XII

Mesmo meio
sem jeito, se atreve
e aperta seu peito e,
uma vida inteira
passa completa
diante das suas
retinas abertas
de profeta ―

Meu ser se
inclina ante o
que me domina
e espio e olho
o que possa ser
sentido desses
corações alheios!

E com meus
meios metafóricos
e rimados, eufórico
e singelo eu vou

compondo belos versos
compridos e diversos,
comprimidos e adversos!

Diversos seres
deste e doutro
mundo fazem
eu ser o poeta
imerso em profundo
sentir que sou:
vivos, falecidos,
imaginários ―

Estou disperso,
no entanto de
vários desses,
é verdade, que
são sentimentos
de Canto, originários
e oriundos apenas
da minha veleidade
e imaginação!

Mas, minha
pena e caneta,
linha por linha,
tão serena e calma
traça com graça
completa que
aninha a minha
alma animada,

uma afinidade
que, talvez, cuma
outra faceta amada,
numa outra vida,
a centenas de anos,
vívida e plena, eu
tenha, sem nada de
enganos vivido!

 
XIII

Alguém que
desdenha de tudo
que até o momento
aqui tem visto e lido,
e me chame agora
de louco, se detenha! ―

Não leia, fomento,
por ora, mais poesia!
Pois ela é tudo isso
o que a pouco lia:
sentimentos ―

comuns e incomuns;
os seus e os meus;
rimados e brancos;
fingidos e francos;
apaixonado e em paz…!

Oras, sou assaz capaz
com minha empatia
em escrever poesia,
sim, senhoras e senhores;
meus caros leitores!

Enfim… e isso,
doa a quem possa
doer e ferir o orgulho,
bem me faz e me satisfaz,
como do cair da chuva
à noite o seu barulho!

Enfêrmero

Eu choro
Por dentro
E imploro
Por algum
Momento
Sem dor.

Vem o calor
E me toma,
Me assoma
Falso amor.

Lapso sabor
De um mel
Amargurado
Feito algum fel,

Tragado pelo
Meu peito
Carente de
Anelo, doente
E singelo,

Que me causa
Tanta ânsia
Essa falsa
Fantasia que
Me encanta
E depois faz
De dois um só.

A paz se foi
Sem dó nem
Nada. Até o nó,
Acabada a ilusão
De se apaixonar,
Não mais há.

Cá entristeço.
E só o que peço,
No abandono
Desse mundo
É um doce sono
De linda cor;
Melhor ainda
Se fosse profundo,
Finda minha dor.

Tempus Fugit

Foi-se o amor
Que doce chegou
Prometendo tudo,
Mas que o vivendo,
Contudo trouxe amargor.

Não vou falar
Que não há dor.
Há sim, muitas,
Mágoas e tristezas
Duma natureza
Análoga à morte.

Mas eu preciso
Caminhar e ser forte,
Continuar minha luta.
Por isso penso na sorte
De ter vivido esse intenso
Sentimento a todo momento.

Ter sorrido do nada
A cada palavra dita,
De modo escrita
Ou simplesmente
Proferida naturalmente.

Ter aproveitado a vida
Quando se está cansado
De viver, e crer ainda
Que existe nela
Algo de linda.

Meu peito anela
Mas desiste de querer
O teu afago, teu doce
Que tanto satisfeito
De encantos me deixou.

Já não sou o amante
De antes. Fosse outrora,
Aceitaria as migalhas
Sem demora, tomando
Com meu sempre amargo.

Mas agora, somente
Trago comigo malhas
Para construir contigo
A fantasia de uma grande
Amizade, que um dia,
Infelizmente, se rasgará.

Passará a felicidade,
Cessará a tempestade
E todos tantos momentos,
Mas o tempo, entretanto,
Indiferente com que a gente
Sente por dentro, continuará…

A quem amas, dê flores

Dê flores a quem amas.
A quem amas, dê flores,
vivas artificiais desenhadas;
mas dê flores, muitas flores –
rosas lírios violetas orquídeas…

Dê flores palavras carinho
a quem amas com teu amor
neste dia dos namorados
(sim, hoje é dia dos namorados);
amanhã será e depois de amanhã
dia dos namorados. E sempre que
se amar será dia dos namorados.

O amor não tem dia, hora, instante.
O amor é a todo tempo.
E todo tempo é hora de amar;
amar e dar flores, palavras e carinho.

O fundo do poço

O céu está tão escuro
quanto a escuridão em mim.
A verdade é que no fundo do poço
todo céu é escuro estando tapado.

Não há nada aqui pra ver
além desse céu escuro,
além dessa úmida treva.
Nem uma luz. Nada.

O mais próximo da luz
que tenho é meu nome.
Mas luiz não é luz, não tem.
É todo sombra e escuro.

Sinto somente a água
a me entrar pelos pulmões ―
Não estava aqui quando cheguei.
Malditos sentimentos que a trouxeram…

O Amor do Poeta ❤

Aonde anda Amor que tenho procurado
Tanto, dia e noite, com o cenho entristecido,
Pelos quatro cantos desse mundo de amado,
Que nada disso sei, sendo-me fundo desconhecido?

Aonde ainda anda com seu engenho tresloucado,
Que quanto, Amor, trabalho e empenho tenho tido
Para, por enquanto, eu não ter profundo afundado
O coração, de mágoas já tão inundo, posto desiludido?

Alguém me disse um dia, bem me recordo,
Que Amor era sua Poesia, a lhe contar segredo,
Quando sua pena escrevia, de além deste bordo!

Alguém me dissera, um Poeta, que desde cedo
Um sentimento bom lhe afeta o peito. Transbordo
Em água fera, porém quieta ao lembrar: era eu, ledo!

Escriptor

Escrevo o que penso
Infenso ao que levo no peito.
Sou um poeta, sujeito
A tantos sentimentos.

Quanto a ser pensador,
No momento não sei se sou,
Se tenho torpor pra isso.
Sei que preciso melhorar,
Crescer e sim, evoluir.

Escrever não é tão simples assim.
Tem que sentir, pensar.
Não adianta só falar.
E que quando canta
Fica esperando só fama,
Falando sem nada a dizer.

Quem ama escrever,
Declama sem ver,
Sem ser visto.
E isto não lhe afeta.

Seja poeta, prosador,
Romancista, pensador:
Seja o que tu for,
Esteja ciente, escritor
Do artista que tu és.

Pés no chão, firmemente.
Leve pr’essa gente amor
Então e muita sabedoria.
Você deve ter ousadia.